WILD WILD EAST

Editorial: Focus Romania, um confronto de identidades

O programa Focus Romania através do olhar de Bianca Stanea, produtora do BEAST IFF.

A paisagem cinematográfica da Roménia está em constante mudança, tem múltiplas camadas e é reconhecida internacionalmente. Sendo o único país latino do Leste, combinado com influências orientais, eslavas e balcânicas, o seu cenário cultural tem sido sempre muito ecléctico. Assim que o mundo do cinema começou a destacar-se dos retratos da Era Comunista, houve uma interessante mudança de paradigma que resultou no ecletismo acima mencionado. A Roménia é um país de contrastes, de extremos altos e extremos baixos, de forasteiros, de migrantes e sobretudo um país que lida com uma crise de identidade não tratada (mas não incurável). Nesta intrincada teia de histórias não contadas e vozes não ouvidas, surge o documentário romeno.

Os quatro filmes selecionados para o programa FOCUS ROMANIA são muito diferentes esteticamente e em termos de narração, contudo, retratam as complexas relações entre os protagonistas e a paisagem. A geografia torna-se mais do que um meio de medição espacial, mas um reflexo da luta para pertencer.

A viagem cinematográfica proposta rompe as fronteiras convencionais do país e leva-nos até à Sérvia, à Moldávia e aos EUA. No confronto entre Oriente e Ocidente em termos de valores, os filmes apresentam duas atitudes importantes: a reação à globalização, à liberdade tal como é entendida pela sociedade capitalista e a reação aos efeitos a longo prazo do passado comunista.

Ivana Mladenović (‘Ivana the terrible’) é uma cineasta sérvia que vive em Bucareste. Viaja de volta para Kladovo, uma cidade na fronteira entre a Sérvia e a Roménia. As suas duas vidas são divididas por uma ponte que atravessa o rio Danúbio.  Nesta longa-metragem de docu-ficção, a cineasta encena um regresso conflituoso à sua família, baseado na sua luta real com questões de saúde que todas as outras personagens parecem acreditar que podem ser resolvidas casando, estabelecendo-se e abraçando a maternidade. 

Gică Enache e a sua família (‘Acasă, My home’) viveram toda a vida num pântano no meio de Bucareste. Assim que este lugar é transformado numa reserva natural, são obrigados a mudar-se para um edifício de apartamentos num bairro social. Trocam a natureza pelo betão de um dia para o outro.  O realizador Radu Ciorniciuc consegue criar um retrato muito terno, mas por vezes bruto da família, através do seu documentário de observação, destacando um tipo de discriminação bidireccional: os Enache’s são em primeiro lugar discriminados porque são de etnia cigana e em segundo lugar porque escolheram um estilo de vida diferente das convenções socialmente aceites.

Nina Cassian (“The Distance between Me and Me”), uma famosa artista romena, conta a sua história da luta entre regimes opressivos. Acaba num exílio forçado em Nova Iorque, eventualmente, torna-se cidadã americana e nunca mais regressa ao seu país. Com base num grande arquivo de imagens do passado de Nina, ela fala sobre política, artes e a imagem da mulher durante o comunismo. Como diz uma das realizadoras, Mona Nicoară, “a história de Nina ensina as lições necessárias numa época em que a liberdade criativa é mais uma vez ameaçada pela ascensão do autoritarismo e do extremismo”.

Dragoș Turea (‘The Soviet Garden’) é um cineasta da Moldávia, um país vizinho muito disputado da Roménia. Ele inicia uma investigação tentando correlacionar o aumento de casos de cancro, com experiências agrícolas soviéticas. Viaja no tempo, através de entrevistas e filmagens de arquivo, desvendando segredos bem guardados. Nesta co-produção Moldávia-Roménia, o ponto de partida do realizador é muito pessoal, a estranha morte da sua avó. No entanto, ele consegue afirmar as atrocidades do regime e ‘desromantizar’ o imaginário soviético. 

Afinal, estes filmes não são apenas sobre viagens no espaço e no tempo, mas sobre viagens transformadoras. Mostram protagonistas fortes que atreveram-se a definir o sistema, falar, ser diferentes, expor-se a si próprios e aos corruptos que os rodeiam. Neste caldeirão de culturas e influências, a Roménia torna-se um país de diversas ideologias, oscilando entre os valores progressistas ocidentais e o sentimento nostálgico em relação ao seu passado. 

Embora haja uma luta constante contra a diversidade, os esforços colectivos dos artistas começam a recuar contra esta corrente de ultranacionalismo, ódio e discriminação.  O cinema está finalmente a abraçar esta crise de identidade e a gerar dele obras de arte significativas, tornando-se uma incubadora de novas formas de contar histórias, estética, imagens e temas poderosos. 

BIANCA STANEA
PRODUTORA DO BEAST INTERNATIONAL FILM FESTIVAL